Você não é perfeito

Recentemente assisti, por acaso, um vídeo motivacional cujo título era: “Você é perfeito”. Com boas intenções, ele elencava angústias diárias contemporâneas, desde a compulsória preocupação com a beleza, até a obrigação de sermos bons e realizados no trabalho, no casamento, nas amizades, a todo tempo. O vídeo aliviava a angústia de tanta cobrança sentenciando: “você é perfeito como você é”.

Eu entendi o objetivo: não precisamos nos angustiar aceitando o jogo dessa fábrica de desejos, que vende a fórmula de nossa própria sobrecarga, nos transformando em eternos devedores que certamente estão deixando de fazer bem feito pelo menos alguma coisa importante. Mas, numa leitura psicológica, me chamou atenção: eu preciso me sentir perfeito para não sucumbir à ansiedade da cobrança? Aceitar a mim mesmo implica em me considerar perfeito?

Você não é perfeito e não tem que ser. A própria fantasia da perfeição vela a realidade de nossa cultura digerir mal tudo aquilo que é fraco, vulnerável, feio. Ela se apressa em tapar a imperfeição com cosmética – como se a imperfeição fosse um caos que exige a organização de um cosmos –, de rugas e estrias até o disfarce de feiuras sociais, varridas esteticamente para debaixo do tapete. Ela se apressa em impor que tomemos providências sobre nossa “imperfeição” moral e comportamental: somos explosivos demais, ou passivos demais, ou tímidos, ou preguiçosos, emotivos demais, frios demais… Nós introjetamos o perfeccionismo como se ele fosse um projeto de vida razoável, e não uma dificuldade patológica de aceitarmos aquilo em que somos ruins.

Em diversos momentos, fomos massacrados pela cultura do sucesso, que esfregou aquilo que considerou imperfeição na nossa cara, tratando-a como imperdoável. Essa “cultura” não é uma entidade abstrata – ela possivelmente se personificou em formas íntimas, como pai, mãe, irmãos, namorados(as) etc. Uma aceitação embrionária do direito de existir de nossos aspectos reprimidos e indesejáveis pode estar no enaltecimento deles como parte de uma perfeição – mas até isso parece, ainda assim, conservar a lógica perversa da ditadura estética do perfeito. Mais libertário parece sequer desejar a perfeição.

Jung se debruçou sobre esse problema. Para ele, a integridade de alguém não é a sua perfeição, mas sim a totalidade. Ou seja, não se trata de a pessoa ser melhor em tudo, tampouco romantizar seus aspectos egoístas, mesquinhos e cruéis, mas olhá-los com a maior objetividade possível.  Assim o autor disse:

Pela assimilação da sombra, o homem como que assume seu corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua esfera animal dos instintos, bem como a psique primitiva ou arcaica, que assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e ilusões. E é justamente isso que faz do homem o problema difícil que ele é (JUNG, OC 16/2).

Assimilar a sombra implica em aceitar o imperfeito – genialmente, Jung fala em assumir o próprio corpo, como campo dos instintos e da “psique primitiva”: tudo aquilo que frequentemente consideramos caótico, bárbaro ou tosco. O perfeccionismo é uma dessas “ficções” e “ilusões” mais repressoras que motivadoras. Por sua vez, aquilo que pensamos ser imperfeição traz um “problema difícil” que nos põe em movimento e nos faz criativos graças à sua tensão.

O humano é um ser eternamente mal adaptado, algo alienígena na própria Terra, de modo que desejar a completa adaptação representaria sua paralisia mortal. “Perfeccionismo”, nesse sentido, é a fantasia de uma perfeita adaptação, perfeita paralisia, perfeita paz: em vez da novidade do movimento dinâmico, o cessar da vida. Ainda bem que você não é perfeito.

Referências

JUNG, Carl Gustav. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência (OC 16/2). Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

Pedro Chaves
Pedro Chaves
​Psicólogo com formação prévia em comunicação social (jornalismo). Especializado em Psicologia Junguiana. Além da clínica, tem experiência prévia de atendimento psicológico em hospital geral e saúde mental.