Precisamos falar de política

Um assunto tabu e que desperta paixões viscerais, principalmente em momentos instáveis. Começar a falar de política tem suscitado quase automaticamente animosidade e resistências que não sabíamos haver em nós mesmos e nas pessoas mais próximas. Emoções que não supúnhamos estar ali, mas estão – para nossa decepção, ou entusiasmo.

Tem sido diário testemunhar discussões no campo dos chavões, palavras de ordem, repetições e reducionismo. Também tem sido diária a descoberta de uma energia militante que, há muito, pensávamos ser impossível no Brasil. Indo além das posições pessoais, a psicologia precisa observar a situação política atual como importante produtora — e sinalizadora — da alma coletiva do brasileiro.

Carl G. Jung aludiu às metáforas da alquimia medieval para falar dos processos de transformação que o psiquismo atravessa. (Ele acreditava que a sensibilidade dos alquimistas ao trabalhar a alma, em seu idioma mítico e estranho, antecipou a psicologia moderna em alguns séculos). A nigredo seria uma dessas fases alquímicas: um estágio denso de putrefação, morte, delírio, incerteza e depressão, no qual a substância da “grande obra” sofre sua total indefinição e a perda de tudo que tomava como certo. Sabemos que estamos numa nigredo pessoal quando sentimos que as emoções nos dilaceram em sua gangorra — nos sentimos um joguete de forças maiores. Nesse estado de pouca ou nenhuma lucidez, discernir e escolher pode se tornar difícil.

Independente do posicionamento político individual, a indignação geral cheira a putrefação. Vivemos essa nigredo coletiva. Algo morreu — uma inocência que não poderá mais voltar. A desilusão é desencadeada pela exposição de forças que atuavam — e ainda atuam — nos bastidores e que se beneficiavam — e se beneficiam — de um inconsciente pacto público de silêncio e ignorância. Novos acontecimentos e informações vêm às claras diariamente, mas ainda não estamos lúcidos a seu respeito: reproduzimos nossos velhos vícios diante do novo quadro de descobertas de escândalos, manobras políticas, delações e julgamentos. De tantas feridas expostas, a subjetividade delas é uma insegurança advinda do impacto desse luto em nossas vidas e na sociedade. Como reconstruiremos uma cidadania? Quais serão os sentidos dados a ela?

Nesse sentido, pensar política atravessa diretamente a psicologia: nossas reações afetivas já estão compondo o país, que por um lado agoniza e, por outro, redesenha-se aos nossos olhos. Cada um de nós se viu, principalmente nos últimos três anos, convertido num agente político. Subitamente, tomamos alguma consciência de nossa responsabilidade — e também dos limites de nosso poder, diante dos poderes instituídos. Por isso mesmo, estamos nos retorcendo em nossa sombra pessoal e coletiva: mesmo o que considerávamos ser “mera opinião” ecoa na praça pública — o Facebook —, alvo de críticas ou ecos. Perdemos a inocência para nos descobrirmos como preconceituosos, cruéis, reprodutores de discursos de ódio. Talvez nos preservemos dessa identificação, ao culpar os outros: a sociedade estaria mais “implicante”, mais “politicamente correta”, chata mesmo. Percebemos que nós oprimimos — e somos oprimidos. Antes, essa violência não parecia incomodar. Hoje, dói e envergonha. É uma janela de oportunidade — essa nigredo pode ser o espasmo de uma nova consciência, ou o sepultamento dela.

O ego de cada um de nós tem de se haver com esse cenário. Na nigredo, as forças que se trombam no escuro não estão claramente discriminadas. Elas começam a se conhecer e se reconhecer a partir de enérgicos esbarrões. De tantos calos pisados, podemos esperar raiva — das mais reativas às mais criativas. Podemos esperar um fervilhar de energia e a resposta de forças repressivas: tanto as instituídas como aquelas internalizadas em nós mesmos. Não haverá como viver esse processo sem afetar e ser afetado.

É tarde demais: por mais absurdo que seja, parece que finalmente estamos começando a descobrir na pele que somos sociais, somos políticos, às vezes das piores formas possíveis. Não podemos nos privar de falar disso e viver isso. Cada posicionamento, nesse momento, não poderá se resumir à “minha opinião” – ela anuncia um modelo de si mesmo e uma imagem para o mundo. E, como disse Jung, “com a imagem que o homem pensante forma a respeito do mundo ele se modifica também a si próprio” (OC 8/2, §696). Aceitemos, para o nosso bem e do país, o encargo de seres pensantes.

Referência

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique (OC 8/2). Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

Pedro Chaves
Pedro Chaves
​Psicólogo com formação prévia em comunicação social (jornalismo). Especializado em Psicologia Junguiana. Além da clínica, tem experiência prévia de atendimento psicológico em hospital geral e saúde mental.