Camadas da Neurose

“É óbvio que o potencial de uma águia se realize no vagar pelo céu, ao mergulhar para pegar pequenos animais para comer e na construção de ninhos. É óbvio que o potencial de um elefante se realize através do tamanho, força e desajeitamento. Nenhuma águia quer ser elefante e nenhum elefante quer ser águia. Eles se aceitam, aceitam seu ser.

Não, eles nem mesmo se aceitam, pois isso significaria uma possível rejeição. Eles se assumem por princípio. Não, não se assumem por princípio, pois isso implicaria numa possibilidade de ser diferente. Eles apenas são. Eles são o que são, o que são.

Quão absurdo seria se eles, como os humanos, tivessem fantasias, insatisfações e decepções. Como seria absurdo se o elefante, cansado de andar na terra, quisesse voar, comer coelhos e botar ovos. E que a águia quisesse [além de voar] ter a força e a pele grossa do elefante.

Que isto fique para o homem — tentar ser algo que não é — ter ideais que não são atingíveis; ter a praga do perfeccionismo, de forma a estar livre de críticas, e abrir a senda infinita da tortura mental.”

Frederick Perls.

A Gestalt-Terapia entende a neurose como um processo de cristalização de uma determinada forma de estar no mundo. Kiyan (2001) afirma que uma vez que a pessoa acumula situações inacabadas ela acaba por interromper o fluxo natural de figura-fundo e perde a capacidade de hierarquizar suas necessidades, o que culmina no enrijecimento de uma determinada “figura”.

Frederick Perls (1979) faz uma análise da estrutura da neurose a partir da metáfora das camadas. Essas camadas neuróticas impedem a pessoa de estabelecer um contato autêntico com o mundo e, dessa forma, atravancam o crescimento pessoal. Atravessar as camadas da neurose simboliza a retomada da espontaneidade que caracteriza o viver autêntico e que foi perdida ao longo da história de vida da pessoa neurótica.

Fritz divide as camadas neuróticas em cinco: a) camada do clichê; b) camada dos jogos e desempenho de papeis; c) camada do impasse; d) camada implosiva e e) camada explosiva. É importante ressaltar que a categorização dos processos neuróticos em camadas separadas só é possível para o âmbito didático, com a finalidade de melhor entender teoricamente tais processos. O dinamismo da vida e a complexidade da condição humana não permitem que o indivíduo como um todo esteja rígido em uma só camada, mas sim transitando por elas e até em camadas diferentes em determinadas áreas de sua vida. Como afirma Cardella:

Gostaria de ressaltar que entendo as ditas camadas da neurose de forma processual, no caminho do indivíduo (ou do cliente) em direção à retomada do seu crescimento. Obviamente, as “camadas” são referências meramente teóricas que facilitam a compreensão, pelo terapeuta, do processo do cliente. (CADELLA, 1994, p. 52).

Camada do clichê

A primeira camada é a do clichê, também classificada por alguns autores em GT de camada postiça, em virtude da facilidade de ser colocada e retirada. Os clichês são símbolos usados de forma automática que geralmente inauguram um encontro, uma conversa. Os famosos “bom dia, como vai?”, o “oi”, os sorrisos e apertos de mão são exemplos de clichês que usamos no cotidiano; eles servem para reconhecer a existência do outro, mas isso não significa que esteja ocorrendo uma comunicação autêntica. Essa camada é também uma forma de teste, onde se verifica a possibilidade do aprofundamento do encontro. Como afirma Perls (1969, p. 123): “[…] Estou testando o outro. Será que ele vai entrar na minha discussão a respeito do tempo ou de outro assunto neutro? Será que podemos seguir daqui para um solo ligeiramente mais precário?”.

Camada da representação de papeis

A segunda camada é a da representação de papeis. Essa é a camada do “como se”, onde a pessoa foge do que é, e se empenha em representar o que não é. Ela se esforça para parecer o que ela gostaria de ser ou o que imagina que as pessoas esperam que ela seja (Kiyan, 2001). Os papeis são os mais variados possíveis: o bonzinho, o fortão, o resistente, o piadista, o super sincero, o sempre simpático, o prestativo, o sedutor, a mãe protetora, o sofrido, o impotente, dentre outros. Uma pessoa pode se fixar em um papel rígido, bem como pode alternar em alguns específicos, como o caso da pessoa que adota a fragilidade em seu ambiente de trabalho e em sua convivência familiar revela-se um tirano.

A busca pelo olhar de aprovação do outro faz com que a pessoa construa personagens, represente papeis com os quais consegue o aplauso social. E de tanto representar o que não se é, perde-se. Confunde-se entre o que é autêntico e o que é máscara. Fernando Pessoa, em sua magnânima genialidade, traduziu o que afirmamos acima em esplêndidos versos, no seu imortal “Tabacaria”:

“[…] Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Estava pegada à cara.
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo.[…]”.

Camada do impasse

Quando a pessoa se dá conta dos papeis que representa no mundo, isto é, sua forma inautêntica de se relacionar com o outro, ela vivencia a experiência que Perls denomina de “anti-existência”. “Agora, se trabalharmos com a camada de desempenho de papeis, se acabarmos com os papeis, o que é que a gente experiencia? Experienciamos, então a anti-existência, experienciamos o nada, o vazio.” (Perls, 1977, p.84). Está é a camada do impasse, também chamada de camada da anti-existência ou camada da evitação fóbica. Aqui a pessoa começa a entrar em contato com as suas angústias, com suas dores existenciais. Começa aos poucos a perceber o que está por debaixo dos papeis.

A atitude fóbica nesse momento de impasse é bastante comum, pois na maioria das vezes não queremos limpar nossas feridas, uma vez que para isso a dor é inevitável. Procuramos as mil e uma anestesias que a sociedade nos oferece. Abafamos nossas angústias e procuramos compensá-las com qualquer coisa que nos afaste da dor e, consequentemente, do crescimento. Na maioria das vezes a pessoa que busca a terapia está começando a entrar na camada do impasse. É importante que o terapeuta, nesse momento, não retire o paciente do incômodo, pois, para que a mudança de fato ocorra, a pessoa precisa estar bastante insatisfeita com os papeis que representa.

É fundamental lembrar que as neuroses, na visão da Gestalt–Terapia, são estratégias de sobrevivência do organismo que se encontram desatualizadas, mas que em um momento crucial de sua vida foram de grande importância. Por isso a pessoa “honra sua neurose”, se apega a ela com unhas e dentes. Muitas vezes essa forma neurótica é o único meio que a pessoa conhece para se relacionar com o mundo. Abandonar sua neurose, nesse  caso, é abandonar o que a pessoa entende como sendo ela mesma, o que, convenhamos, no mínimo parece aterrador. É preciso que o terapeuta tenha paciência para entender esse processo árduo.

Camada implosiva

É nesse momento que a pessoa entra na camada implosiva, ou camada da morte. O neurótico sente como se estivesse morrendo, perdendo o que ela entendia como sendo ela. Existe uma espécie de luta interna entre a vontade de mudar, que significa “matar” a forma antiga e a tendência a permanecer na forma antiga, o que proporciona uma espécie de paralisação. Como afirma Perls: “[…] Apenas se mostra como morte por causa da paralisia causada por forças em oposição. É uma espécie de paralisia catatônica: nós nos agregamos, nos contraímos e comprimimos, nos implodimos.” (Perls, 1977, p.85).

Quando a pessoa encontra-se na camada da implosão, é comum que na terapia apareçam sonhos ligados a temática da morte. A pessoa pode sonhar que está morrendo, ou que algo ou alguém que represente sua forma existência neurótica esteja morrendo ou tenha morrido.

Se a pessoa faz contato com essa “morte” e resiste ao processo sem retroceder, ela pode se dar conta dos mecanismos que usa para se interromper, ou seja, o modo como se restringe e se limita. O que representava uma implosão mortal pode, nesse momento, transformar-se em uma explosão de vida. O ponto chave do processo alquímico da terapia pode acontecer nesse momento, uma vez que a pessoa se liberta das amarras que impedem de ser quem é. É nesse momento que se abre a possibilidade da paradoxal mudança existencial, que pode ser ilustrada na famosa frase do filósofo Frederick Nietzsche: “Torna-te quem tu és”. Eis a camada da explosão.

Camada explosiva

Nessa última camada, a explosiva, a pessoa consegue expressar seu verdadeiro self, isto é, sua forma autêntica. A energia bloqueada no impasse e paralisada na implosão pode finalmente ser liberada e canalizada para a satisfação das necessidades genuínas. Perls fala de quatro tipos de explosão:

Existem quatro tipos básicos de explosões da camada da morte. Existe a explosão em pesar genuíno, se trabalharmos com uma perda ou morte que não tenha sido assimilada. Existe a explosão em orgasmo, em pessoas sexualmente bloqueadas. Existe a explosão em raiva, e também em alegria, riso, alegria de viver. Estas explosões se ligam a personalidade autêntica, ao verdadeiro self. (PERLS, 1977, p.85.)

É fundamental lembrar que essas explosões da última camada da neurose não são o Eldorado perdido, a chegada ao paraíso onde tudo será belo e feliz. O processo de crescimento pessoal é dinâmico, a vida e o mundo estão em constante mudança, em constante movimento. Dinamismo que só para com o findar da existência. Sendo assim, uma vez que a pessoa alcança essa forma autêntica em terapia, ela precisa ser consolidada e constantemente cuidada para que não se torne cristalizada novamente. Lembrando também que saúde em GT é sinônimo de fluidez, de flexibilidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AUGURAS, Monique. O ser da compreensão: Fenomenologia na situação de psicodiagnóstico. 14. Ed. – Petrópolis. Vozes, 2011.

CARDELLA, Beatriz Helena Paranhos. O amor na relação Terapêutica: uma visão gestáltica. Summus Editorial, 1994

D´ACRI, G., LIMA, P., ORGLER, S. Dicionário de Gestalt-terapia: “Gestaltês”. 2. Ed. Revista ampliada- São Paulo: Summus,2012.

FAGAN, J. & SHEPHERD, I.L. Gestalt-terapia: teoria, técnicas e aplicações. Rio de Janeiro, Editora Zahar, 1970.

PERLS, F. (1977). Gestalt-Terapia Explicada (10. ed.). Col. Novas Buscas em Psicoterapia. São Paulo: Summus.

PERLS, F. (1979). Escarafunchando Fritz: dentro e fora da lata de lixo. São Paulo: Summus.

PIMENTEL, Adelma. Boletim Clínico n. 9, outubro/2000 – Compreendendo o desenvolvimento saudável e o doente em Gestalt-terapia para realizar um diagnóstico colaborativo, cap. 5 da Tese de Doutorado da UFPA.

Salomão Gualberto
Salomão Gualberto
Psicólogo. Especializando em Psicologia Clínica pelo Contato – Núcleo de Estudos e Aplicação de Gestalt-Terapia.