Amor próprio, amor dos outros

É senso comum do nosso discurso cultural que nosso amor próprio deve vir antes do amor do outro. Que nossa autoestima não deve ficar refém de terceiros e que, quando aprendemos a nos amar e formos um pouco mais bem resolvidos com nossas próprias necessidades, o amor do outro deverá nos chegar mais facilmente, como consequência natural. Esse enunciado pode ser positivo e libertador, incitando o indivíduo a cuidar de si mesmo e não projetar tanto suas demandas nos outros – mas pode ser também uma fonte de tormenta nada sutil.

“Se ame”. Francamente: determinar isso para uma pessoa que sofre de baixa autoestima, ou de depressão, constitui uma violência – sugere que a pessoa, com dificuldade patológica de reconhecer o próprio valor, não poderá gozar do amor antes de estar bem consigo mesma. Esse tipo de discurso vela a insensibilidade da ditadura da felicidade: se você não estiver bem, não é digno de ser amado. Isso confirma na pessoa que sofre a responsabilidade solitária – que ela já sabe por si só que tem – de superar herculeamente a aridez de seu sofrimento. Simplificar uma regra de “se ame”, para alguém que não está se amando, afirma menos o amor e mais nossa cultura da solidão.

Essa empatia não pode ser confundida como um salvo-conduto à crença de que os outros me devem algo e precisam saciar a minha sede de amor. Muitas relações tóxicas – no âmbito familiar e amoroso – são mantidas pela crença de que alguém nos deve amor, ou que devemos, apesar de nossos limites, dar esse amor para elas. Como diria Nietzsche em seu Zaratustra, em cada escama do grande dragão que nos impede a transformação está escrito: “tu deves”.

No entanto, também é importante reconhecer que a voz que afirma que o amor é impossível a não ser que eu esteja bem é um desses “tu deves” viciados: tu deves estar bem, mas não consegues; tu deves, mas não podes – essa é uma perigosa fantasia do próprio sentimento de desvalia. Reconhecer que podemos ser amados, mesmo quando não estamos nos amando, é realismo. Às vezes, nosso valor próprio está eclipsado para nós mesmos, mas não para alguém próximo. Constatar isso é importante para aprendermos a perceber o amor, mesmo quando não acreditamos que temos direito a ele.

Viver esse eros, ter esse reconhecimento vindo do outro pode ser um processo importante para o resgate de si próprio. É importante diferenciar a vontade genuína de amar e sermos amados de uma mendicância emocional – aquele estado de sofrimento onde a pessoa se encontra com fome de afeto e essa fome exige sempre mais. Desejar relações, desejar dar e receber dos outros não precisa significar dependência afetiva. Mas, sim, admitir que os outros são importantes para nossa constituição emocional é uma humildade que a cultura da solidão, com sua apologia intensa ao individualismo, parece negligenciar: admitir que todos queremos amar e ser amados nos inclui de volta na humanidade, quando achamos que estamos sofrendo sozinhos, e alivia um pouco o peso que possamos sentir quando estamos em déficit na nossa capacidade de dar ou receber amor.

Pedro Chaves
Pedro Chaves
​Psicólogo com formação prévia em comunicação social (jornalismo). Especializado em Psicologia Junguiana. Além da clínica, tem experiência prévia de atendimento psicológico em hospital geral e saúde mental.