A Psicologia é um Aprofundar-se

Toda nossa linguagem é tecida por uma rede de metáforas que usamos quase sempre inconscientemente. Perguntamos: “onde você quer chegar com esse relacionamento?”, como se relacionamentos fossem uma viagem e como se precisassem chegar a algum lugar. Também dizemos: “o passado ficou para trás”, como se ele fosse uma região às nossas costas. Do mesmo modo, afirmamos que alguém tem “a vida pela frente”.

Quando o assunto é psicologia, a metáfora mais popularmente cristalizada é a do equilíbrio. Através de uma terapia, iríamos desabafar, nos conhecer e levar uma vida mais balanceada. Essa é uma metáfora válida, mas não única. O equilíbrio sugere uma paz conquistada na tensão de forças opostas, mas também pode indicar uma excessiva familiaridade nossa com nós mesmos. Nesse sentido, a prática da psicologia também precisa desterritorializar, nos espantar e tirar de uma geografia conhecida e, por que não, desequilibrar.

(É interessante reparar que se, por um lado, a metáfora do equilíbrio se ancora na imagem de um corpo humano ereto e estável, por outro lado, na prática, o corpo só caminha porque é assimétrico nos pequenos detalhes. Nossos pés, joelhos, às vezes pernas não têm o exato mesmo tamanho e formato, assim como cada metade do rosto e mesmo os lindos olhos delineados de quem amamos têm um leve estrabismo. O equilíbrio dinâmico de um saudável passeio se dá pelo desequilíbrio de nossas partes).

O equilíbrio é uma metáfora de movimento. Numa terapia, qual seria o movimento que realizamos?  Sentimos angústia quando estamos andando em círculos, em vez de caminhando para frente?  Sentimos angústia quando sentimos que paramos, ou mesmo caímos, ou andamos para trás? Todos esses são espectros no grande leque dos movimentos.

Talvez o principal movimento da psicologia, entre todos esses, seja o aprofundar. Na Antiguidade, Heráclito teve essa percepção, quando fala da psique: “Limites da alma não encontrarias, nem todo o caminho percorrendo; tão profundo logos ela tem” (fragmento 45). A dimensão da alma é a profundidade – e assim deve ser o seu saber, o logos da psique, ou psicologia.

Para a psicologia profunda e para uma psicoterapia que pretende fazer jus ao trabalho com a psique, ou alma, é necessário aprofundar-se em cada um de seus movimentos: equilibrar e desequilibrar, ir para frente, para trás e ao redor, subir, descer e ficar, achar-se e perder-se, piorar e melhorar. Em cada uma dessas dimensões está reservado um encontro consigo mesmo.

Nesse sentido, a psicologia nos humaniza, porque nos torna mais conscientes e compreensivos com nossos diversos movimentos e suas emoções: aproxima-nos de nós mesmos, nos torna mais flexíveis e costuma nos tornar mais empáticos. Por outro lado, a psicologia também nos desumaniza, exatamente pelas mesmas razões: nos põe em contato com nossas emoções e seus aspectos profundos, arquetípicos, pulsionais, impessoais, titânicos, selvagens, enérgicos e indiferentes à nossa ideação civilizada do que é ser “humano”. Esse des-humanizar é sair da caixa estreita do que identificamos como “humano” para ser iniciados na linguagem da alma. Potente e desconcertante, assim.

Profundo, assim. A psicologia profunda busca no rol de queixas, predileções e aversões do ego os ecos da vida íntima da alma: suas imagens bizarras, personagens, fantasias, narrativas. Quase sempre ignoramos essas coisas ao meio-dia, mas no silêncio da noite elas se aproximam, na insônia que devaneia, ou em sonhos estranhos. Ou, ainda, em situações atravessadoras da vida, nos fundos do poço. Nesses lugares ignorados, escuros, úmidos e muitas vezes indesejados, a alma parece espraiar raízes. Encontrá-la e cultivá-la implica num processo de aprofundar-se nos seus domínios. O poeta inglês John Keats escreveu ao seu irmão:

O cognome comum desse mundo entre o equivocado e o supersticioso é “um vale de lágrimas” do qual nós temos que ser redimidos por uma certa imposição arbitrária de Deus e levados aos Céus – que noção pequena e circunscrita! Chame o mundo, se você quiser, “o vale de fazer alma”. Então você descobrirá a serventia do mundo.

Fazer alma, portanto, abandona a lógica costumeira para ouvir a lógica tortuosa própria da psique. Sem pretender corrigi-la, mas aprender com ela. Portanto, não pretende uma psicologia encarcerada ou compreendida em seus conceitos, mas disposta à surpresa. Essa metáfora parece apropriada.

Referências

HILLMAN, J. Re-vendo a psicologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

Pedro Chaves
Pedro Chaves
​Psicólogo com formação prévia em comunicação social (jornalismo). Especializado em Psicologia Junguiana. Além da clínica, tem experiência prévia de atendimento psicológico em hospital geral e saúde mental.